DCC – Capítulo 109 – 3Lobos

DCC – Capítulo 109

Teoria da Conspiração

 

E pensar que desde o começo, as Relíquias da Criação, Transformação e Sabedoria não eram as únicas que existiam. Me vi de volta naquele dilema: só por que eu não conheçia, não significava que não existia.

E uma Relíquia capaz de manipular o tempo e o espaço? Isso estava longe da minha capacidade de compreensão do mundo. Há eras a humanidade vinha sonhando com a possibilidade de controlar o tempo. De viajar para o passado e para o futuro. Mas sempre haveria uma barreira que impediria tal coisa de se tornar realidade. Com o tempo, a humanidade aprendeu a cortar o espaço, e isso acabou virando inclusive uma das três magias mais nobres, a Onipresença.

Mas tinha uma coisa que eu não conseguia entender afinal:

— Por que você o chama de Deus, se ele é como um de nós? — eu perguntei confusa.

— Dhar não é como nós. Desde o princípio, sempre foi ele quem guardou a Relíquia da Organização. Não houve outro guardião. Nada nunca conseguiu vencê-lo ou sequer impedir ele se ele quisesse alguma coisa.

— Certo. Então ele é velho pra caramba! Qual o problema? — eu perguntei fazendo as contas mentalmente. Ele deveria ter no mínimo vários milhões de anos.

— O problema é que até a Grande Guerra Xenofóbica, ele nunca tinha aparecido. O segredo sobre ele era tamanho que mesmo a Relíquia da Sabedoria não tem informação nenhuma sobre ele. — Henry disse com uma expressão sombria — O objeto que supostamente guarda toda e qualquer informação sobre qualquer um no universo não consegue rastrear ele.

— Como isso é possível?

— Então… ninguém sabe! Quando as revoltas antes da guerra começaram a estourar, os inquisidores imperiais conseguiram pegar aqui e ali rastros de pessoas que aparentemente “não existiam”. Eles não tinham passado, não tinham dados, o DNA não batia com nenhuma raça e qualquer registro sobre eles desaparecia pouco depois.

— Que nem eu? — eu perguntei casualmente.

— Mais ou menos. Eu até confesso que peguei a ideia das modificações que eu fiz em você pra te proteger e seu planeta natal das coisas que eu sabia sobre os homens de Dhar. Porém você ainda pode ser rastreada. Se alguém fizer um arquivo sobre você, ele vai continuar existindo. Mas aqueles capangas… eles simplesmente começaram a se infiltrar nas bases de governo dos planetas e incitar o povo contra o povo. Ninguém mais sabia por que estavam lutando, sabiam apenas que tinham que acabar com o inimigo. Brards contra Jomons.

— Mas qual era o objetivo dele com isso tudo? — Parecia absurdo que uma pessoa sozinha tinha conseguido motivar uma guerra que acabou com a vida de planetas inteiros.

— Nos encontramos pessoalmente uma vez… — Henry disse pensativo.

— Sério? E como foi?

— Estranho. Aparentemente ele só queria me ver. Marco estava do meu lado naquele dia, e ficou na minha frente como se Dhar estivesse se preparando pra me matar a qualquer momento. Ainda eramos amigos na época.

— Pode ser que Dhar queria a Transformação? — perguntei ansiosa.

— Talvez… mas eu nunca esqueci do que ele disse… — dessa vez Henry tinha uma expressão séria. Eu aguardei mas ele não disse nada. Parecia ter se mergulhado em devaneios de novo.

— O que foi que ele disse? — eu instiguei.

— Ele disse pro Marco: “É chegada a hora. Todas as peças estão no lugar. Vou te dar apenas uma chance, e se você falhar, vai ser minha vez de jogar.”

— Eu não entendi o que isso quiz dizer…

— Marco depois me disse que Dhar tinha dado a ele a oportunidade de me matar. Se Marco não fizesse isso, então ele se arrependeria para sempre.

— Então é por isso que vocês começaram a brigar? Marco tentou te matar?

— Não. Marco nunca levantou um dedo contra mim. — Os punhos de Henry envergaram de raiva e força. Eu quase podia tocar o ressentimento dele. — Mas depois do encontro com Dhar, ele me traiu e me torturou de todas as formas que pôde.

O que eu pude entender era que Dhar era o grande arquiteto por trás da Grande Guerra Xenofóbica que quase deixou uma ruptura sem remédio na aliança que os humanos tinham. O império humano teria sido dizimado para sempre se a guerra não tivesse sido contornada, apenas com o ódio crescente. Mas depois de tudo…

— Será que Marco não era um aliado de Dhar? — eu comecei a pensar.

— Eu pensei nessa possibilidade. Um cara promissor, grandes chances de pegar o trono para o império. De repente vem uma guerra conveniente para ele mostrar suas habilidades e enfim ser coroado o imperador mais jovem da história… não dava pra negar que parecia suspeito. Além do mais, Marco nunca negou.

— Então porque você não acha mais que eles são aliados?

— Marco sempre se esforçou para levar o império adiante. Ele ajudou a recuperar os planetas que sofreram com a guerra e concedeu independência a muitas colônias. Não parece muito o governo de alguém que estaria planejando a queda do império humano.

— Mas e se Marco for Dhar? Esse tempo todo pode ser que ele estivesse tentando usurpar o cargo mais poderoso da galáxia! — eu disse, falando sério. — Afinal Marco é um dos poucos que consegue expandir a consciência dele ao ponto de controlar autômatos como se fossem ele mesmo sem perder a consciência do corpo original. — De repente eu já estava imaginando o cenário. — Pode ser que ele seja mesmo o Dhar, e na frente de todos ele agiu como Marco, inclusive na sua frente, para não levantar suspeitas.

— Isso seria um absurdo…

— Além do mais, foi Marco quem te apresentou para o grupo dos guardiões. Pode ser muito bem que ele tenha planejado desde o princípio te usar como peão dele. Se ele controla a Relíquia da Organização, então ele não deve ter como controlar outra Relíquia invasiva como a Transformação sozinho no próprio corpo. Talvez tenha tudo sido um plano para ele tomar controle de todas as Relíquias sozinho e de quebra ainda levar a coroa do império. Além do mais, ele como imperador, o que ele não poderia fazer?

Henry estava aturdido com as minhas teorias, enquanto eu falava muito rápido. Mas então ele começou a rir.

— Do que está rindo? — eu perguntei nervosa.

— Estou rindo por que faz sentido… mas Marco não é Dhar e nem está aliado com ele. — Henry disse com uma certeza resoluta.

— Como pode ter tanta certeza? — perguntei cismada.

— Digamos apenas que… é um instinto.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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