DCC – Capítulo 108 – 3Lobos

DCC – Capítulo 108

O quarto pedaço

 

— Henry… Henry! Fale comigo! — eu chamei, tentando fazer ele despertar daquele devaneio que ele tinha entrado.

Então Henry sacudiu a cabeça e voltou a si, me olhando como se tivesse me visto pela primeira vez na vida. Ele me abraçou com força, escondendo o rosto em meu pescoço.

— Henry? — eu chamei de novo, preocupada. Fazia bastante tempo que ele não me mostrava aquela expressão insegura e impotente dele.

— Me deixe ficar assim por um tempo… — ele pediu. Parecia um garotinho assustado. Partiu meu coração imaginar que havia alguma coisa ainda que pudesse assustá-lo a tal ponto, então eu apenas o abracei de volta enquanto acariciava seus cabelos.

— Está melhor agora? — eu perguntei depois de um tempo.

— Desculpe, me desculpe. Estou sendo um fraco na sua frente, — ele disse rapidamente, se desculpando. — É só que a possibilidade de alguém que não pode ser rastreado nem mesmo pela Sabedoria… só me faz pensar em uma pessoa capaz disso.

— Você fala desse tal de Dhar? Quem é ele afinal? — eu perguntei receosa.

Henry respirou fundo. Parecia ainda estar se decidindo se me contaria ou não.

— Até onde sabemos… não existem somente três Relíquias, mas sim quatro.

— Que??? Quatro relíquias??? — Isso realmente tinha me deixado chocada.

— É uma forma de dizer…

— Então esse Dhar é o guardião da quarta Relíquia? — eu perguntei aturdida.

— Não necessariamente…

— Explique as coisas direito! Eu não consigo entender! — eu reclamei.

— Certo! Certo… Especificamente falando, existem apenas três Relíquias que guardam um poder quase divino que deve ser contido por um humano aleatório a fim de ser estabilizado e controlado. Essas relíquias não estão necessariamente ligadas às vidas dos seus guardiões. À exceção de você e Nádia, e de eu mesmo, nenhum dos guardiões anteriores foi recrutado por suas Relíquias.

— Então esse Dhar é alguém que foi recrutado pela quarta Relíquia? — eu perguntei em dúvida.

— Quando um guardião morre, a Relíquia se comprime e pode ser guardada em uma crisálida especial até ser levada ao próximo guardião. Sempre tinha sido assim. Então nunca desconfiamos da existência de uma quarta Relíquia. Isso porque Dhar não é um guardião. Dhar é a Relíquia em si. Eu não sei se ele chegou a nascer humano e se fundiu com a própria Relíquia ao ponto de virar o que virou, ou se ele sempre foi assim, mas Dhar é algo que podemos chamar de “deus”.

— Um deus? — Isso parecia uma constatação um pouco exagerada, mas eu não vi nenhum sinal de exagero ou brincadeiras nas palavras de Henry. — E você está dizendo que ele que está por trás disso?

— Não acho que ele baixaria o nível para lidar com humanos dessa forma. Muito provavelmente esse fulano que você identificou que não pode ser rastreado pela Sabedoria é apenas um peão dele. Mas é muito provavelmente a pista mais próxima que já tivemos desde… deixe pra lá. Não procure por esse sujeito sozinha. Dhar é a coisa mais perigosa no universo conhecido.

Eu percebi que Henry deliberadamente não me contou alguma coisa. Mas também não pressionei. Ele provavelmente não estava pronto para compartilhar essa informação comigo.

— Então o que faremos agora? — eu perguntei.

Henry suspirou profundamente. Parecia estar lutando contra um forte debate interno. Então, ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro resmungando ocasionalmente coisas incompreensíveis.

— Meu amor… — eu resolvi intervir quando vi que ele não sairia desse transe tão cedo, — Briane foi convocada para ir até o festival de ano novo em Keret. Já que a princesa de Kanis ainda está querendo mostrar as garras para ela e para nós, eu decidi que seria melhor se fôssemos todas juntas.

Henry ainda andava de um lado para outro. Eu fiquei esperando ele entender a qualquer momento o que eu tinha dito, e começar a surtar com essa ideia absurda. Encarar o Imperador de frente logo depois de eu ter arremessado ele contra uma parede não era a coisa mais inteligente a se fazer, mas para a minha surpresa, ele disse:

— Sim, pelo visto teremos que ir. Precisamos informar aquele patife do Marco sobre os movimentos de Dhar. Se Dhar está concedendo poderes para as pessoas saírem desse universo a fim de não serem rastreadas, então essa não vai ser uma guerra que possamos vencer sozinhos.

— Então você acha que o plano de Kanis para dominar os outros planetas do quadrante 24 tem algum dedo desse tal de Dhar envolvido?

— Dhar pessoalmente não iria lidar com esses assuntos menores, mas ele com certeza não perderia a oportunidade de tentar arquitetar uma segunda guerra. Provavelmente é ele quem está por trás dos projetos base que permitem armazenar feitiços de Obliquação.

— Uma segunda guerra? Como assim?

— A Grande Guerra Xenofóbica… foi arquitetada por ele. Ele posicionou os peões dele pela galáxia ao ponto de eles começaram a incitar as massas… Jomons alegando direito pela supremacia, Brards alegando injustiça e igualdade de direitos. Quando menos se esperava, a guerra estourou.

— Que horrível! — Eu sabia que havia algo errado com o inicio da Grande Guerra Xenofóbica que era ensinado nas escolas, mas eu não imaginava que na realidade ela tivesse sido incitada por uma única pessoa.

— Então coisas começaram a acontecer… Comboios carregando Brards para serem vendidos como escravos começaram a aparecer por todo canto. E do outro lado, assassinatos cruéis e a sangue frio de Jomons sem nenhuma razão aparente. Ninguém se preocupava mais em tentar descobrir quem era o culpado, todos generalizaram. Brards dizendo que se vingariam dos Jomons e Jomons dizendo que se vingariam dos Brards.

— Mas qual era o objetivo desse Dhar afinal de contas? — eu perguntei me sentindo enojada.

— Eu não sei se ele tem um objetivo, — Henry disse sentindo-se pra baixo. — Sempre me pareceu que ele tinha vontade apenas de tocar fogo na sociedade e ver as pessoas se matando para a própria diversão. Mas uma coisa, eu acho que ele quer com certeza…

— O que?

— As nossas Relíquias.

Senti um calafrio de temor ao imaginar isso.

— Henry… Qual o poder da Relíquia de Dhar?

— Parece uma coisa um pouco antiquada de se dizer hoje em dia, mas, de fato, não há outra definição digna para nossas Relíquias do que “objetos divinos”. Se formos pensar em como elas funcionam, a Criação criou e controlou toda a matéria que compõe esse universo. A Transformação fez uso dessa matéria para construir elementos novos e sucessivamente ser capaz de formar as estruturas estelares. Por fim a Sabedoria controla o conhecimento e a gravidade que une todas essas coisas. Tudo funciona perfeitamente em equilíbrio, mas falta um pedaço.

Henry explicava, me olhando tão intensamente, como se eu desviar o olhar por um segundo fosse suficiente para eu não conseguir entender ou absorver a seriedade do que ele estava falando.

— Então o último pedaço que falta é…? — eu perguntei, tentando acompanhar a linha de raciocínio dele.

— A Organização. A Relíquia que controla o tempo e o espaço por onde todas as coisas podem existir e serem transformadas. Dhar é basicamente o deus do tempo e do espaço.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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