DCC – Capítulo 105 – 3Lobos

DCC – Capítulo 105

Avó

 

Retornamos para o apartamento de Isaac. Ele morava sozinho em um local mais ou menos próximo de onde eu morava com as meninas, mas a qualidade do lugar era definitivamente bem maior do que a do nosso apartamento. Era de se esperar para alguém que viveu a vida inteira no palácio imperial.

Porém, diferente do esperado, o lugar estava uma bagunça. Isaac nunca tinha tido que lidar com nada sozinho, muito menos em como organizar uma casa, então as coisas dele facilmente perdiam o controle.

— Você definitivamente não parece em nada com Henry quando se trata de decoração… — eu comentei sorrindo.

— Ha ha… não diga nada, por favor! Me ajude com essa bagunça, rápido. Eu não posso receber minha avó nesse ninho, — ele pediu nervoso.

Eu ergui uma barreira sonora que ondulou por todo o apartamento. Eu tinha melhorado consideravelmente a minha técnica com o Marionete desde que eu tinha começado na academia. De primeira, eu só conseguia manipular coisas que eu já tivesse tocado antes. Isso era por que, para mover um objeto, era preciso que ele estivesse impregnado com a aura mágica do artista em questão. Mas agora com a barreira sonora, eu conseguia enviar um pouco de aura mágica para todos os objetos ao meu redor sem sequer tocá-los diretamente.

Com um aceno da minha mão, todos os objetos ao meu redor foram erguidos do chão flutuando em fila para o quarto de Isaac, deixando a sala de visitas completamente vazia da bagunça anterior.

— Oh! Eu nunca tinha pensado nisso! — Isaac disse satisfeito.

— É, mas a bagunça não desapareceu, só está entulhada no seu quarto. Cedo ou tarde terá que lidar com ela. — Eu sorri para ele. — Vou passar a localização da sua casa para Petra. Ela virá nos encontrar aqui.

Não demorou muito, o som da campainha veio da porta. Isaac ficou completamente rígido como se tivesse esquecido o que deveria fazer, então eu mesma indiquei ao sistema para permitir a entrada.

Petra entrou com aquela postura elegante e sóbria de sempre. Ela tinha baixado um pouco a bola para lidar comigo, mas ela ainda tinha um porte de nobreza impressionante e ligeiramente opressor. Isaac imediatamente ficou rígido ao meu lado.

— Eu imaginei que Henry estaria aqui com vocês… — ela disse depois de confirmar a ausência do filho. Ela olhou rapidamente de mim para Isaac.

— Henry está resolvendo alguns outros assuntos no momento. E de qualquer forma, Ele não está sabendo da estadia do filho aqui na academia.

Para a minha surpresa, Petra simplesmente sorriu para Isaac.

— Então você simplesmente está aqui contra a vontade do seu pai?

Isaac sem jeito sorriu de volta para ela.

— Não é que eu esteja contra a vontade dele… deles… — ele começou a passar a mão sem jeito no cabelo — Mas dada a situação… digamos “exótica” deles, fica um pouco difícil para mim conhecer a vida sem a interferência da influência deles.

— Henry me disse que você foi adotado pelo imperador. Eu sempre imaginei que o filho do imperador da galáxia ainda fosse uma criança de colo. E pensar que você já está grande assim.

— Haha… é só mais um motivo pra eu guardar segredo da minha identidade. Como eu sou mestiço, meu corpo acabou envelhecendo bem mais rápido do que o de uma criança Jomon pura. Mas eu já estou estabilizando.

— Entendo. Confesso que eu nunca tinha conhecido nenhuma criança mestiça antes. Mas de alguma forma, você é a cara do seu pai, — Petra disse sorrindo calidamente.

Isso me surpreendeu bastante. O fato dela demonstrar uma emoção terna quebrava bastante a imagem de durona e implicante que eu tinha dela.

Eu deixei os dois sentarem e conversarem em paz. Isaac então explicou toda a situação familiar complicada dele para Petra, da qual ela ainda não conhecia os detalhes. Ela, por sua vez, ficou calada a maior parte do tempo apenas o observando e monitorando os movimentos da princesa e do tal Esdras Portos, que fez contato com Magna.

— Mas eu não tinha ideia que pai Henry era relacionado com a Casa dos Siever. Quero dizer… Parando pra prestar atenção agora, é meio óbvio, com o talento inato que ele tem pra magia e tal.

— Bem, quando ele saiu de casa, ele ainda não tinha sido apresentado oficialmente à sociedade, já que ainda não era proficiente para trabalhar como inquisidor. E já que praticamente toda a educação dele foi dentro dos muros de nossas propriedades, poucos o conheciam como um de nós. As poucas informações que tinham sido dispersas em nossa raiva por perder ele como nosso herdeiro, fizemos questão de apagar.

Petra não escondeu nem escolheu palavras. Eu podia sentir que ela ainda carregava uma carga muito pesada sobre o que tinha acontecido, que definitivamente tinha mudado bastante a forma dela de encarar as coisas.

— Então vocês não se dão bem com o pai Henry? — Isaac perguntou mesmo já sabendo a resposta.

— Graças à sua amiga Alésia, ele tem nos dado a chance de nos aproximarmos como família. Mas ele cortou completamente qualquer possibilidade de se associar a nós como instituição novamente.

— É… eu entendo isso… — Isaac comentou mais pra ele mesmo do que para Petra.

Ela obviamente não sabia que Henry preferiria se desassociar da família pro caso de nosso segredo vazar e alguém tentasse usá-los como chantagem. Não que eu duvidasse que existissem muitos poderes capazes de se oporem à Casa dos Siever. De qualquer forma, agora que eu estava começando a prestar atenção nas capacidades da Sabedoria, ter domínio sobre as Relíquias realmente significava controlar a galáxia inteira.

Esqueça sobre as raças da humanidade. Nenhuma sociedade poderia escapar se eu simplesmente desse a louca de querer sair dominando os planetas. Acabei rindo sozinha dos meus pensamentos tolos e chamei a atenção dos dois. Petra levantou uma sobrancelha para mim. É claro que ela tinha pegado a ideia por trás. De que estávamos guardando um segredo. Por isso que ela não insistia mais em trazer Henry de volta para a Casa dos Siever tão desesperadamente.

— De qualquer forma, o que foi feito, foi feito. E pensar que todos esses anos estivemos no festival de ano novo no palácio imperial sem nunca saber que você era nosso neto. — Petra disse acariciando a cabeça de Isaac. — E ainda por cima, um jovem tão talentoso…

— Ah, é verdade. Se quiserem, podemos nos encontrar durante o festival desse ano. Deixarei avisado para a guarda do saguão interno para permitir a entrada da senhora e do meu avô.

Urg. Eu tive um calafrio incômodo só de lembrar da minha última ida ao palácio imperial justamente para o festival de ano novo. Felizmente não tínhamos mais nenhuma obrigação de ir para aquele lugar maldito.

— É muita gentileza sua, — Petra disse contente e orgulhosa. — E pensar que meu neto é o príncipe imperial.

Os dois continuaram jogando conversa fora até extrapolar o limite de tempo que Petra podia gastar. Ela já havia cancelado compromissos importantes para vir até aqui, e isso já tinha sido de grande ajuda.

— Madame Petra, espere! — eu a chamei assim que ela estava prestes a sair. — Você encontrou algo estranho enquanto investigava Magna?

Petra torceu as sobrancelhas para mim. Dessa vez ela estava bem séria.

— Os assuntos que dizem respeito à inquisição não devem…

— Magna intencionalmente ajudou a acobertar um crime de estupro. Motivo pelo qual ela quis me expulsar durante aquela audiência sem sentido.

— Como? — Petra mostrou uma expressão confusa agora.

— E isso não é tudo. Eu acredito… sei que ela está envolvida com alguém que fornece crisálidas obliterantes.  — Eu não podia dar a ela os detalhes de como eu “sabia” disso, mas desde que eu estava falando diretamente para ela, ela não tinha motivos para duvidar. E baixei o tom de vós para que apenas ela escutasse, — O mesmo tipo de crisálidas que Emil usou.

— Você tem certeza disso? — ela estava mais séria do que nunca. Eu pude sentir a pressão da aura dela tentando dominar o ambiente. No momento em que eu tinha pronunciado aquelas palavras, é claro que ela assumiria uma postura mais “profissional”.

— Eu não estaria dizendo se não tivesse. Você sabe que meu nível de onisciência está um pouco acima da média, então quando encontrei a vítima do estupro, afetada pela crisálida, é claro que eu pude reconhecer e sentir a memória que estava sendo apagada.

Eu estendi a mão para Petra e compartilhei com ela a memória que eu tinha pego de Briane. Petra já era bem experiente e já tinha participado de muitos julgamentos, por certo ela não se abalou com essa memória. Mas a expressão dela estava cada vez mais sombria.

— Se realmente você tiver topado com um rasto do fornecedor dessas abominações, nem que eu tenha que mover um planeta inteiro, eu vou chegar ao fundo disso e destruir esses vermes. Eu assumirei o caso de Magna e dessa sua amiga. Se tiver qualquer informação a mais, não exite em me procurar.

E assim ela saiu. Definitivamente eu tinha tocado na ferida.

Me despedi de Isaac e parti para meu próprio apartamento. Todas as meninas já estariam lá a essa hora. E eu precisava atualizar a situação com elas. Assim que eu abri a porta, Márcia e Michelly já vieram gritando, me arrastando para a mesa. Isabel estava bem mais animada e Briane estava sentada lá também com um olhar levemente perdido.

— O que houve? — eu perguntei sem entender. Passei o dia monitorando qualquer atividade suspeita que envolvesse qualquer uma delas, mas não consegui imaginar o que pudesse ter acontecido para deixá-las tão alvoroçadas.

— Briane foi convidada pro festival de ano novo no palácio imperial em Keret. Ela vai acompanhar a comitiva oficial do planeta dela!

Puta merda.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
FONTE
Cores: