DCC – Capítulo 104 – 3Lobos

DCC – Capítulo 104

Gus Morghantti

 

— A princípio, eu tinha planejado lidar com você depois de me livrar de alguns problemas, mas já que você tão amavelmente resolveu vir até mim, acho que posso fazer uso de sua pessoa… — eu disse lentamente para ele enquanto estalava meus dedos um a um por baixo das luvas.

Estávamos em uma sala reservada do restaurante, eu, ele e Isaac. Isaac estava fazendo cara de quem estava desinteressado na conversa e que não iria interferir, mas eu podia sentir que ele estava atento a cada palavra. Já Gus, eu podia sentir que ele tinha me seguido até aqui pois cada parte do corpo dele estava intimidada com o fato de eu saber o nome dele.

— Escute, eu não quero problemas. Podemos muito bem continuar fingindo que não sabemos quem somos. Vida que segue.

— Mas por que tanta frieza, Gusinho? — eu caçoei. — Nem parece ter a mesma animação de me ver agora que tinha quando visitava a arena.

— Se… Se você continuar insistindo em querer me ameaçar, eu falo pra todo mundo que você é a Ruiva de Sangue.

— Ameaças? Eu ainda nem comecei! — eu disse, dessa vez ficando séria. — E qual é o problema de você espalhar por aí que eu sou a Ruiva de Sangue. Não é como se eu que fosse sair perdendo com isso.

— Então o que você quer? — Gus perguntou agoniado. — Diga seu preço.

— Ah… definitivamente é um preço bem alto! De primeira, eu estava pensando em perseguir você e sua família e destruir tudo o que vocês construíram dentro do império. Assim como todos aqueles que frequentaram aquele lugar… — eu comentei como se fazer isso fosse simples como comer um bolinho. — Mas depois de alguns acontecimentos eu reconsiderei… você é mais útil como meu servo.

— Destruir minha família? Virar seu servo? Você tem consciência de quem eu sou? Eu sozinho já tenho um brasão azul. Não sou alguém com quem você possa simplesmente mexer. Eu não sei que sorte você teve de escapar de Laplantine antes do que aconteceu, mas isso não tem nada a ver comigo.

“Antes do que aconteceu”? O que ele quis dizer com isso?

— Gus, Gus, Gus… Não venha alegar nobreza para cima de mim, — eu disse mostrando meu brasão dourado girando na ponta dos meus dedos. Imediatamente toda a cor do rosto dele desapareceu completamente. — Eu não estou te dando uma opção.

Imediatamente ele desistiu de resistir ou insistir. Não havia como negociar contra um brasão dourado. A única pessoa acima de um brasão dourado era o Imperador em pessoa, coisa de quem ele estava longe.

— Então foi você? — ele perguntou quase sem voz. Suor começou a escorrer pela testa dele.

— Eu o que?

— Que destruiu a Lua Laplantine inteira! — ele estava aterrorizado.

A lua inteira tinha sido destruída? As últimas notícias que eu tinha ficado sabendo era que o esquema de Demetre tinha sido desmontado com os arquivos que Henry vazou para a macronet, e muitos foram caçados. Porém, muitos conseguiram escapar também, inclusive Demetre e seu bando.

— Aquele lugar foi destruído? — eu perguntei intrigada. — Conte-me tudo o que sabe sobre Demetre Laplantine. E não se atreva a mentir na nossa presença!

Eu disse cerrando os olhos enquanto o encarava com mais intensidade. Então removi uma das luvas e estendi a mão para ele. Se ele quisesse mentir para mim, eu saberia. E para o azar dele, se ele tivesse alguma memória escondida, eu ainda era uma obliterante. Então eu também saberia.

— Quando fiquei sabendo que a Lua Laplantine tinha sido destruída, eu achei de primeira que tinha sido algum ataque rival ou coisa parecida. Simplesmente vazaram todos os dados do dono do lugar e dos frequentadores que estavam lá. Pra minha sorte ele guardava as informações sobre mim em outro banco de dados que não foi descoberto.

— Então existe um segundo banco de dados? — Isso realmente era uma descoberta interessante.

— Sim. Depois que descobriram que a Lua Laplantine simplesmente evaporou até virar um anel de destroços ao redor do planeta natal, presumiram que Demetre tinha sido morto, então várias pessoas têm oferecido no mercado negro uma quantia generosa como recompensa pelo segundo banco de dados de Laplantine.

— Faz sentido… o nome de muita gente estará nas mãos de quem botar as mãos nesse banco de dados, — comentei pensativa.

— Já que você tem um brasão dourado, presumi que tinha sido as tropas imperiais que tinham explodido o satélite. Quem mais teria poder bélico suficiente para explodir uma lua inteira aos pedaços? Porém é tudo o que eu estou sabendo, — ele disse triste.

— Já é o suficiente.

A desvantagem da Sabedoria é que ela poderia me dar apenas as informações que eu já sabia que existiam. Se eu não soubesse que existia um segundo banco de dados, eu não tinha como procurar por ele com a Sabedoria. Mas agora era uma situação completamente diferente. Bastava eu localizar e estabelecer uma ponte com Sophia. O console baixaria todas as informações do banco de dados para minha intranet pessoal, depois era apenas uma questão de eu destruir o banco de dados original. Assim apenas eu poderia usar as informações que tinham nele.

Mas Demetre morto? Isso não parecia certo. Henry me levou embora daquele lugar praticamente assim que me resgatou e não voltou mais lá. Aquele velho trambiqueiro era esperto e desconfiado demais para ser morto por qualquer um. No mínimo ele teria fugido imediatamente após descobrir que quem me resgatou tinha sido Henry. Provavelmente ele mesmo tinha destruído a lua para despistar os rastros dele.

— Mais alguma coisa? Posso ir agora? — Gus perguntou resignado.

— Só mais uma coisa… — eu disse ligando meu Link pessoal e enviando uma mensagem diretamente para ele.

— C-como? — Dessa vez ele estava completamente chocado.

Eu havia enviado uma cópia de todas as senhas que ele tinha de todas as contas e acessos que ele tinha. Dados bancários, endereços, inclusive o acesso remoto do Link pessoal dele.

— Eu estou apenas te provando que eu tenho controle total sobre cada pequeno detalhe da sua vida. Não adianta sequer trocar as informações. — Então eu me levantei, me aproximei ameaçadoramente e o encarei com um olhar sombrio. Mesmo Isaac que estava tentando demonstrar estar alheio à situação se encolheu instintivamente. — Sua vida e tudo o que é seu me pertencem agora. Se eu sequer sonhar que você quer me trair… Ah… nem sequer queira imaginar o que vai acontecer.

Gus me encarava de baixo com a boca aberta, completamente aterrorizado. Realmente quem tinha informação para dominar os outros, tinha poder acima de tudo.

— Eu não…

— Você pode ir agora. Vá sabendo que eu sei todos os seus passos de cada segundo do dia. E se eu precisar de você é bom aparecer imediatamente.

— S-sim…

Gus saiu apressado aos tropeços. O rosto dele já estava em um tom verde, como se estivesse prestes a vomitar.

— O que foi isso? — Isaac perguntou assustado. — Eu não conhecia esse seu lado.

— Isso, meu amigo, é meu plano de me livrar de veneno usando veneno, — eu disse séria.

— E o que é essa Lua Laplantine?

Eu contei brevemente sobre o que tinha acontecido comigo naquele lugar. Era a primeira vez que eu falava em voz alta sobre aquilo. As vezes eu ainda acordava com as dores das batalhas, como se fosse uma dor fantasma cravada na minha alma. Mas eu tinha tanta raiva do que tinha acontecido que eu me recusava a esquecer. Eu continuaria lembrando de tudo até que todos pagassem por cada gota de suor e sangue que eu tive que derramar naquele lugar.

— Caramba… Não é a toa que você é tão assustadora contra quem te provoca! — Isaac estava pasmo — E pensar que tudo isso aconteceu contigo!

E era por que eu nem contei para ele ainda que eu na verdade tinha me casado com o pai dele depois que o tio dele tentou matar — e quase conseguiu — nós dois.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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