DCC – Capítulo 103 – 3Lobos

DCC – Capítulo 103

Reuniões

 

Beatrice de Kanis:


— Alguém pode me explicar… O QUE FOI QUE ACONTECEU? — Eu gritei com as meninas enquanto elas se encolhiam de joelhos na sala do meu palacete após o fiasco que foi aquela audiência.

— A madame Siever simplesmente apareceu lá sem nenhum aviso, minha princesa!

— Como é que uma inquisidora chefe, da elite da galáxia, chega na academia sem nenhum aviso? Sequer para Petra Siever sair de casa, metade da galáxia ficaria em alerta. Como ninguém foi avisado?

— Nós não sabemos! Ela não informou a visita para a instituição…

— Desculpas! — A incompetência delas estava me irritando. — Eu trouxe vocês aqui apenas por um motivo, e vocês estão falhando comigo. A próxima vez será a ultima. Cometam mais um erro e enviarei todas de volta para Kanis acusadas de traição. — As quatro baixaram as cabeças, envergonhadas. Assim era melhor. Não me serviam empregados que não eram capazes de cumprir com suas tarefas. — Agora foi muita sorte daquela mestiça imunda… e pensar que iria aparecer um inquisidor junto na audiência em que ela seria expulsa…

— Minha princesa, recomendo rever o plano. Parece que os aliados de Briane realmente devem ter algum poder desconhecido os protegendo, — uma das damas falou.

— Pensei que já tínhamos chegado à conclusão de que eles não eram ninguém, — eu contestei o argumento.

— Mas uma Siever apareceu para interceder…

— Não seja ingênua. Não foi uma Siever qualquer, foi a líder dos Siever. Com certeza a madame foi movida apenas pelas palavras daquela burra da Magna, como ela mesma disse. Ela não iria baixar sua dignidade para se envolver com qualquer ralé, principalmente mestiços fajutos. Mesmo que aquelazinha fosse talentosa, ela sequer pode sonhar em receber qualquer outro favor dos Siever apenas por causa do sangue sujo que ela tinha. Iríamos seguir o plano. A desmoralização de Belquior III dependeria da queda de Briane!

 

Alésia Latrell:


Eu não pude deixar de rir ao ouvir a conversa da princesinha com as quatro damas da corte. Ela realmente estava fazendo todos os planos dela em cima do fato de não ter encontrado nenhuma informação relevante sobre mim ou Isaac, mesmo sabendo que ela não tinha cacife suficiente para investigar qualquer um a fundo.

Mas afinal, ela era uma princesa. O que ela sabia sobre não ter os recursos que queria? Ela provavelmente pensava que se ela não tinha descoberto nada, era por que não existia. A parte boa de eu estar conseguindo configurar Sophia…

— Como assim, ela é minha avó? — Isaac me perguntou chocado, escondido atrás de uma enorme taça de sorvete. — O pai Henry era um filho da Casa dos Siever esse tempo todo?

Depois que saímos da audiência, Petra foi acompanhar a escolta de dona Magna até o anel central, então viemos aguardar em um restaurante do anel externo.

— Eu sinceramente não entendo como ninguém desconfia, afinal, ele tem o mesmo sobrenome… — eu disse revirando os olhos para o sorvete dele, enquanto beliscava uma torta.

— Sobrenomes são completamente irrelevantes. Eu já conheci pelo menos mais seis pessoas que se chamam Siever sem nenhuma relação com a Casa dos Siever aqui na academia no tempo que estou aqui.

— Mas fala sério… O seu pai é um caso absurdo! Por que ele é tão famoso afinal? — eu disse revirando os olhos.

— Porque ele foi a única pessoa a recusar uma indicação ao cargo de imperador… — Isaac disse.

Dessa vez eu deixei meu queixo cair. Novas coisas podiam mesmo ser descobertas todos os dias.

— Como assim?

— Bom, você sabe que a linha do passagem do imperador não é necessariamente hereditária, — Isaac começou a explicar. — Quando o imperador vigente decide se afastar, ele deve apresentar um candidato qualificado para ocupar o cargo, e passar pra ele a herança do império. Mestre Gabriel Gionardi escolheu o pai Henry e pai Henry recusou. Então, o pai Henry indicou o pai Marco, e o mestre Gabriel aceitou.

— Então Henry tem o brasão dourado dele desde a época do imperador anterior?

— Acho que sim… mas e pensar que pai Henry era filho da Casa dos Siever o tempo todo… por que ele fez segredo disso?

— Por causa da nossa condição… — eu não especifiquei. Isaac sabia que eu estaria me referindo às Relíquias. — Henry sabia que ele já era alguém que chamava atenção quando virou guardião. Quando Marco assumiu o império, ele apagou todos os registros que ligavam Henry à Casa dos Siever, e assim a família dele pôde ser mantida a salvo de qualquer ligação. De qualquer forma, os parentes de Henry haviam rompido laços com ele há mais de cinquenta anos quando ele decidiu seguir carreira na bioengenharia médica.

— Então… ela não sabe que eu existo? — Isaac parecia um pouco incerto sobre o que esperar nesse momento.

— Não exatamente. Devido a um incidente, eu e a família de Henry já nos conhecemos, o que levou Henry a contar pra ela detalhes sobre a vida dele. Petra não vai com a minha cara. Ela não vai mais me causar problemas, muito bem, obrigada. Porém, ela quer se envolver comigo menos ainda. Então eu atraí ela aqui usando você.

— Então… ela veio aqui para me conhecer? — Isaac perguntou assombrado.

— Exato. Mas se você quer se encontrar com ela ou não, isso é escolha sua, — eu expliquei.

Ele abriu a boca para falar mas parou por um momento. Parecia estar pensando no assunto.

— E pensar que temos tantos segredos entre a gente… Desde que ninguém espalhe por aí a minha identidade verdadeira, eu quero sim conhecer ela pessoalmente! — Isaac respondeu animado.

— Então eu vou organizar o encontro. O último problema agora é Henry… Ele ainda não sabe que você está estudando na academia também.

— Ah, isso é bagunça sua! Resolva! — Ele apontou o dedo para mim, rindo. Apesar de regularmente falar com Henry e Marco, nenhum dos dois sabia do paradeiro atual de Isaac.

— Não se preocupe. Eu pedirei para ela manter segredo. Henry ainda não terminou de fazer a investigação que ele saiu para fazer de qualquer forma. Vamos indo?

Eu chamei, vendo que Isaac já havia terminado. Pagamos o lanche e fomos saindo, quando acidentalmente dei um encontrão com alguém na entrada.

— Me desculpe! — eu disse distraída.

— Caramba, sua louca! Não sabe ver para onde está indo? — Ele resmungou irritado, quando finalmente olhamos para a cara um do outro.

Ele parou de falar, completamente chocado e com os olhos arregalados, e eu não pude deixar de levantar um sorriso pelo canto da boca.

— Ora, ora… o que temos aqui? Eu não esperava que o dia hoje fosse ser tão… produtivo.

Ele pigarreou desconcertado e desviou o olhar para longe, se fazendo de ofendido.

— De qualquer forma, tente não encostar em mim de novo. Com licença!

O rapaz disse se afastando para o lado mas eu imediatamente bloqueei o caminho dele com meu braço. Isaac torceu as sobrancelhas intrigado mas não interferiu.

— Por que a pressa? — Eu sorri para ele expressando toda a malícia que eu conseguia. Obviamente ele captou a mensagem.

— E-eu não sei o que você quer, agora se puder sair da minha frente, eu… — ele começou a falar tentando forçar passagem.

— Gus Morghantti, não é? — eu perguntei, pronunciando o nome dele, ele imediatamente paralisou no lugar. Definitivamente ele não esperava que eu fosse pronunciar o nome dele ali, sendo que do ponto de vista dele eu não deveria fazer a menor ideia de quem ele era.

Ele voltou o rosto na minha direção.

— O-o o que disse? — ele perguntou apavorado.

— Ah, por favor… não vamos fingir que não nos conhecemos, eu sei que me reconheceu alguns dias atrás! — eu falei tentando parecer desapontada. — Faz muito tempo que não viaja para assistir massacres ilegais?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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