DCC – Capítulo 101 – 3Lobos

DCC – Capítulo 101

Julgamento

 

Já era o outro dia quando encerrei a projeção de realidade aumentada e o meu quarto voltou a aparecer diante dos meus olhos. Amelie tinha terminado de montar o cubo mágico e o balançava de um lado para o outro, completamente entediada. Ela parecia uma criança cujo brinquedo tinha perdido a graça. Eu tinha que tentar arrumar mais tempo para ela depois.

Briane ainda não tinha saído do quarto. Isabel pelo menos estava sentada na área comum do apartamento tomando uma xícara de café bem quente.

— Você está melhor? — eu perguntei para ela.

— Estou sim… Não posso ficar sofrendo para sempre com uma lembrança que não é minha. Se não, não vou poder ser uma artista mágica profissional nunca! — Isabel respondeu com um sorriso sem confiança.

— Leve o tempo que precisar. Todo mundo precisa de um tempo pra aprender a lidar com o lado podre da vida, — eu disse, me servindo de um pouco de café também.

— Você deve ter encarado alguma barra bem pesada… — não era uma pergunta. Ela também não parecia estar interessada em saber o que eu tinha visto para me dar forças pra encarar aquela memória de frente. — O que vamos fazer?

— Hoje vai chegar a intimação da ocorrência que a atendente do centro administrativo fez contra mim… — eu disse casualmente. — Eles planejam entregar durante a aula de hoje, e de lá me levar para uma audiência disciplinar de onde pretendem me expulsar da academia sem julgamento.

— Isso é horrível! E injusto! — Isabel lamentou. Ela estava completamente desiludida e indignada.

— Não se preocupe… Eu já preparei tudo. Eles que vão ser pegos de surpresa. Se você não aguentar a pressão, não vá para a aula. Não vai ser bonito.

— O-ok…

— Cuide de Amelie por mim… Vou chegar tarde hoje.

A praticidade do console realmente era muito boa. Ele ficava praticamente imperceptível em baixo da manga do casaco e das luvas. Encontrei Isaac na entrada do portal para o sexto anel.

— Você parece cansada! — ele comentou.

— Acabei virando a noite em claro… Mas valeu a pena…. — eu disse entre bocejos.

— Ainda sobre o tal problema de ontem?

— Sim… eu tinha que preparar algumas peças do jogo…

— Falando nisso. Algo estranho aconteceu ontem, — ele disse sério. — Depois que nos separamos, eu ainda tinha algumas aulas no Centro de Onipresença, então fiquei no sexto anel por um tempo. Quanto voltei, eu senti que estava sendo seguido, então eu fui dar um tempo no centro comercial antes de voltar pra casa até me livrar da sensação. Isso tudo que está acontecendo… foi alguém que descobriu nossas identidades e está tentando nos…

— Calma… Não é nada disso. E é justamente por não fazer ideia de com quem está se metendo que essa pessoa está completamente ferrada, — eu disse tranquilamente.

Isaac pareceu aliviado. Ele estava se divertindo bastante na academia. Mas se descobrissem que ele era o príncipe imperial, muito provavelmente ele teria que deixar esse lugar. Ele nunca conseguiria assistir uma aula tranquilamente de novo.

— Então o que está acontecendo afinal?!

— Você já ouviu falar dos conflitos políticos envolvendo os sistemas estelares do Quadrante Galáctico 24?

— Um pouco… O Sistema Kanis comandava o Quadrante 24 inteiro até antes da Grande Guerra Xenofóbica, alegando que os outros sistemas eram apenas colônias de exploração, então depois da guerra, as colônias, lideradas pela Belchior III, exigiram reconhecimento como colônias de povoamento e logo em seguida pediram emancipação de Kanis.

— Exato. Briane é a primeira cidadã de Belchior III desde o reconhecimento da emancipação a vir para a academia.

— Isso é bom!

— Não quando Kanis parece motivado a fazer tudo o que estiver ao alcance deles para desmerecer Belchior III… Não quando a princesinha vai fazer o que for preciso pra acabar com Briane. Fazer bullying com a gente é só brinde dela.

— Então já que fizemos amizade com Briane, ela demorou todo esse tempo para agir porque ela não tinha certeza se podia mexer com a gente! — Isaac começou a entender meu ponto de vista.

— A princesa encomendou um ataque contra Briane a depois apagou a memória dela, com a mesma tecnologia que usaram para apagar a memória de Amelie. Nesse momento, seu pai está fazendo a engenharia reversa dessa tecnologia para descobrir quem inventou essas porcarias. Na outra mão, eu estou investigando quem está aliado à princesa.

— Espere… eu não entendi uma coisa. Se a princesa quer colocar algum tipo de pressão contra Briane, porque ela iria querer que a memória dela fosse apagada?

— É isso que eu ainda não consegui entender, — eu disse preocupada. Se tivesse sido apenas um crime marginal, feito com a intenção subversiva dos criminosos de se aproveitarem do corpo de Briane, então apagar a memória dela era natural, para eliminar as pistas. Mas eu não conseguia imaginar qual era o plano acima de tudo isso.

Quando chegamos na sala, a princesa estava sentada com um ar satisfeito e bem humorado. Ela evidentemente não conseguia deixar menos óbvio que sabia que a intimação estava para chegar. Em um momento os nossos olhares se encontraram e ela me deu um sorriso cruel. Eu igualmente sorri de volta e ainda mandei um tchauzinho.

Precisamente na hora marcada, dois oficiais fardados bateram na porta.

— Senhorita Alesia Latrell, por favor! — eles chamaram, sendo que no tom de voz não tinha nada de favor.

Eu me levantei calmamente.

— Pois não?

— Você está sendo intimada para uma audiência disciplinar no centro administrativo. Nos acompanhe!

A turma toda entrou em alvoroço. Mas foi a princesa a primeira a começar a tripudiar:

— Nossa! Uma audiência disciplinar no centro administrativo? Justo uma das melhores alunas? E pensar que ela conseguiu esconder tão bem até hoje que é uma falha…

Murmúrios começaram a se espalhar pela sala.

— O que foi que ela fez?

— O que será que aconteceu?

— Será que é alguma coisa grave?

— Será que ela ofendeu alguém importante demais dessa vez?

Eu quietamente segui os dois oficiais para fora da sala. Metade da turma nos seguiu junto. A audiência seria ali mesmo no sexto anel para “minimizar o impacto”. No geral, os réus eram informados com antecedência, preparavam uma defesa, e iriam para um julgamento. Isso quando cometiam algum crime grave. Eu apenas tinha sido chamada a atenção. Não era o caso de um julgamento, muito menos de expulsão. Isso tudo era um circo desnecessário. Mas se aquela ridícula queria brincar, eu também iria usar meus brinquedos.

Quando chegamos na sala de audiência, até aquele momento apenas dona Magna estava presente do centro administrativo. Então, o plano dela era que apenas ela deveria saber do que se passaria aqui. Ela faria algum discursinho moralista sobre como os alunos comuns devem respeitar as autoridades e as nobrezas, e decretaria que eu deveria ser expulsa como exemplo. Metade da minha turma estava presente para assistir ao veredito. Era suficiente para dar um efeito moral.

— Senhorita Alesia Latrell? — Dona Magna chamou.

— Sim…

— Sua ficha pessoal não possui mais dados pessoais. Por que não informou seus dados para a instituição? — ela perguntou.

— Porque eu não tenho nenhum dado relevante que eu possa informar. — Bom… eu não “podia” informar, podia?

— Você sabe por que está aqui? — dona Magna perguntou de novo sem olhar para mim, enquanto mexia no display dela fingindo ler coisas importantes.

— Sim, senhora! — eu respondi calmamente.

— Então você reconhece seu erro! — ela exclamou como se fosse a constatação óbvia. Mas ela não parecia que ia voltar a me dar a palavra. — Desde que eu decidi abrir a ocorrência contra seu nome, descobri que existem pequenos rancores pelo campus de diversos alunos. Tal comportamento em nossa estimada instituição é realmente lastimável. Ainda por cima no mais honrado Centro de Onisciência que apoia a estrutura da nossa sociedade com base na honestidade e na virtude do ser humano. Sua presença só pode representar uma mácula na nobre história que percorre por eras nas mãos de artistas dedicados. — Ela realmente começou a fazer um discursinho moralista. — Em virtude disso, é sem nenhum pesar, que eu revogarei a sua inscrição nessa instituição de ensino.

Todos da turma que estavam lá assistindo começaram a falar exaltados. Sem saber exatamente o que estava acontecendo também, ninguém tinha coragem de falar por mim. Dona Magna olhou para mim provavelmente pensando que eu iria começar a chorar e espernear pedindo por misericórdia, ou começar a fazer escândalo dizendo que aquilo era injusto. Mas eu apenas fiquei ali calada sorrindo levemente.

— Há algo que ainda queira dizer? — Dona Magna perguntou, levantando a sobrancelha.

— Não senhora, não é necessário. — eu respondi simplesmente, ainda sorrindo.

Dessa vez ela começou a ficar desconfortável.

— Você entendeu as consequências do que acabou de acontecer? — ela insistiu.

— Sim, senhora. — Eu respondi de novo.

A turma ainda balburdiava ao meu redor. Dona Magna já estava com o rosto vermelho.

— Humpf… Você é mesmo uma menina vulgar! Levem-na daqui! — ela disse para os dois oficiais ao meu lado.

Os dois oficiais já estavam se aproximando quando as portas da corte se abriram de novo.

— Não há necessidade de levar ninguém! — Uma senhora disse entrando pela porta, acompanhada por uma aura pesada que obrigou a maioria dos presentes a se abaixar. — Eu vou conduzir esse julgamento agora!

Os olhos de dona Magna se arregalaram quando ela olhou para a porta e reconheceu a recém-chegada. Era uma inquisidora! E não qualquer uma. Eu pessoalmente tinha convidado Petra Siever.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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