DCC – Capítulo 100 – 3Lobos

DCC – Capítulo 100

Nas minhas mãos

 

É interessante lembrar que a única pessoa acima de alguém com um brasão dourado é alguém com um brasão branco, que significa que é o imperador em pessoa. Então, quando o vendedor olhou para o meu brasão, ele simplesmente petrificou no lugar.

— Ah… oi? — eu chamei estalando os dedos na frente dos olhos dele.

— M-m-m-me perd-d-d-oe alteza! — ele disse com a voz esganiçada ficando de pé em um salto e começando a andar de um lado para o outro como se não soubesse mais o que fazer. Eu registrei levemente a mudança no pronome de tratamento. — Irei providenciar imediatamente vosso pedido! — e saiu correndo.

— Espere! — eu o chamei e impressionantemente ele parou de se mexer completamente quanto eu falei, ficando parado no meio do ar com uma pose estranha. — Acho que não preciso lembrá-lo de ser discreto quanto a minha presença aqui, não é? — dessa vez eu fiz questão de parecer séria.

— Claro que não, alteza! Por favor, sinta-se à vontade para aproveitar da nossa loja com toda a discrição possível! — ele virou-se para falar com o tom de voz meloso e estridente.

Com a pequena motivação do brasão dourado, os consoles ficaram prontos em menos de uma hora. Eles provavelmente pararam tudo o que estavam fazendo apenas para atender ao meu pedido o mais rápido possível. Graças às modificações que eu pedi, o preço saiu consideravelmente salgadinho, mas não era algo que eu realmente precisasse me preocupar.

— Aqui está, alteza. Conforme as solicitações. E o sistema de segurança tanto de hardware quanto de software é o melhor que existe. Pode ficar tranquila que qualquer pesquisa de seu marido vai estar completamente segura e indetectável, mesmo se o dispositivo estiver diretamente conectado na macronet.

— Eu estarei confiando nas suas palavras! — eu disse recebendo o pacote, então eu abri um sorriso ameaçador. — Caso contrário, pode ter certeza que nenhuma nobreza abaixo de mim voltará a comprar na sua loja.

O vendedor ficou completamente pálido e imóvel de novo. Agradeci, me cobri com minha capa e voei de volta para o apartamento.

Cheia de ansiedade, abri um dos consoles. Era um aparelho relativamente pequeno. Podia ser encaixado no pulso como uma braçadeira e usado juntamente com o Link ou com um projetor de realidade aumentada.

Os softwares de segurança realmente eram bem avançados. Eram capazes de alterar o IP de acesso à macronet várias centenas de vezes por segundo e mesmo assim a taxa ainda poderia ser ampliada.

Assim que iniciei, uma interface simplificada com a tela branca e um nome “Sophia” escrito em cinza apareceu. Logo abaixo apareceram duas frases “Implementação padrão” e “Implementação personalizada”.

— Implementação personalizada, — eu ordenei ao sistema.

Imediatamente, o sistema tomou conta do meu Link pessoal e todo o ambiente ao meu redor foi completamente alterado por uma projeção artificial. Era como uma sala branca de fundo infinito, apenas com o chão e com o teto. A capacidade de processamento desse sistema realmente era uma coisa assombrosa, eu sequer podia ver o fim. E todo esse espaço vazio poderia ser preenchido com aplicativos e programas de diversos tamanhos e capacidades de execução.

A interface então se transformou em um gigantesco rosto humanoide sem detalhamento composto apenas de dados vazios. O rosto se virou para mim de forma mecânica e ao mesmo tempo suave e disse:

— Bem vindo ao seu novo sistema operacional personalizado. Eu sou Sophia, seu assistente de configuração pessoal. Aqui estão as listas de protocolos e diretrizes primárias.

Uma interface foi exibida com uma imensa lista contendo todas as regras do sistema operacional. É claro que, para um sistema civil, ele vinha com alguns protocolos de segurança que limitavam o desempenho e a atuação de certas funcionalidades do sistema, mas desde que eu soubesse quais eu precisasse remover ou alterar, não haveria necessidade de preocupações, então eu comecei a dar comandos de configurações para o sistema:

— Nova diretriz primária: navegação anônima.

O assistente reordenou a lista de protocolos.

— Nova diretriz: eliminar armazenamento de dados pessoais.

O assistente de novo reordenou os protocolos.

— Nova diretriz: acesso à rede local bloqueado. Sem exceção.

A medida que eu dava os comandos, a lista de protocolos ia se reorganizando automaticamente. Isso me levou quase o resto do dia inteiro, por que mesmo que o assistente executasse automaticamente, ele só permitia quando não havia nenhum protocolo dependente. Se houvessem dependências entre os protocolos, eu tinha que reorganizar tudo para dar certo, e ainda por cima, tomar cuidado para não estragar o sistema.

Eu estava basicamente tirando todas as limitações legais do sistema que impediam que alguém plantasse vírus ou programas espiões em outros aparelhos, e ainda por cima levantando paredes e mais paredes de segurança. A melhor parte é que mesmo que em uma remota possibilidade de rastrearem o meu aparelho, nunca conseguiriam triangular a localização dele. A única forma seria se por acaso o pegassem pessoalmente e abrissem o console, mas aí a única coisa que encontrariam seria um aparelho extremamente poderoso e perigoso, mas nenhum dado comprometedor. Tudo o que eu fosse fazer, eu iria guardar em uma rede local da qual apenas eu teria acesso, completamente fora da internet e da macronet.

— O seu sistema foi configurado com sucesso — o assistente informou finalmente depois de várias horas. — Gostaria de instalar algum programa ou aplicativo?

Eu pensei um pouco no que eu poderia usar primeiro.

— Baixar sistema de posicionamento galáctico.

— Quais as preferências de mapeamento?

— Todas.

Quase imediatamente um pequeno cubo apareceu flutuando na minha frente. Como o espaço ao meu redor representava a capacidade de processamento do console, o cubo representava a exigência do programa que o sistema estava baixando.

Eu toquei no cubo e ele imediatamente se expandiu, exibindo uma “miniatura” esplêndida da galáxia. Cada local que eu apontava, o mapa ia ampliando, exibindo quadrantes estelares magníficos nos mínimos detalhes. Era uma visão incrível.

— Sair, — eu dei o comando e o mapa se recolheu até voltar ao formato de cubo flutuando na minha frente. — Parece que eu tenho a galáxia inteira nas minhas mãos…

Nas mãos de qualquer outro, isso poderia ainda ser uma arma incrivelmente poderosa, mas nas minhas, era uma arma de poder quase absoluto. Por que eu tinha a Sabedoria. Eu poderia simplesmente virar vidas inteiras pelo avesso com um estalar de dedos. Transformar nobres em plebeus miseráveis e pobres, e principalmente levar aqueles malditos que estavam se aproveitando das falhas do sistema para a justiça.

Mas a primeira coisa que eu iria fazer… era tomar o controle de tudo!

— Iniciar protocolos fantasmas, — eu comecei a comandar o sistema — estabelecer acesso com a macronet. Iniciar conexão com o primeiro anel.

O primeiro anel da academia era exclusivamente administrativo. O que quer dizer que apenas quem fazia parte da direção e manutenção dessa imensa estrutura podia entrar lá. Para eu criar um usuário fantasma e roubar os dados de lá, eu precisaria de alguma forma conectar um vírus diretamente com alguma maquina ligada ao sistema local da academia que me permitisse abrir uma porta ou derrubar os firewalls de acesso. Mas com a Sabedoria, bastava eu querer, que eu teria todas as senhas na ponta da língua. Então, eu precisava apenas criar um usuário fantasma que me desse acesso ao sistema interno da academia e voilá!

Todo o sistema interno de câmeras da academia, bem como as gravações e dados registrados de todos os alunos, estavam ali à minha disposição, assim como os registros de quem manejava esses arquivos. Simples assim.

Agora eu só precisava seguir as gravações até encontrar os culpados. E se eu não encontrasse as gravações, eu encontraria quem estava encobrindo eles. Isso seria uma caça às bruxas magnífica.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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