DCC – Capítulo 10 – 3Lobos

DCC – Capítulo 10

As visitas

 

― Ela parece estar com anemia. Talvez não tenha se alimentado durante os dias em que esteve desaparecida, e a pressão está baixa. Me preocupa ainda essa temperatura baixa dela… Talvez fosse melhor levá-la ao hospital.

As vozes pareciam distantes. Duas pessoas conversavam ao meu lado. Abri os olhos confusa e tentei me sentar. Alguém tinha me carregado até o sofá e tentado me aquecer com um cobertor. Era meu pai, Daril Latrell. Ele conversava com mamãe, sentados à mesa, enquanto eu estive inconsciente.

Devo dizer que fiquei chocada. Meus pais não moravam juntos e dificilmente Daril aparecia na casa da mamãe, apenas em raras emergências, porque mesmo ela relutava em chamá-lo. E assim que papai me viu desperta, abriu um sorriso caloroso e foi até o sofá ficar ao meu lado. Lançou um olhar direto à Alya, e ela entendeu, a contragosto, que estava sendo convidada a se retirar da própria casa. Assim que ela saiu, ele falou:

― Como você está, minha criança?

Eu realmente gostava muito do papai porque, apesar da pouca presença, ele era sempre muito gentil e carinhoso comigo e meu irmão. Eu até supunha que tinha sido por isso que a mãe não permitia mais que Daril convivesse conosco… ele era muito mole.

― Desculpe por causar problemas, pai… ―  Eu não conseguia fitá-lo. ― Não era a minha intenção…

― Desde que você me garanta que está tudo bem… ― Ele sorriu tentando passar confiança, mas acho que minha cara definitivamente expressou que eu não poderia lhe garantir isso, e ele entendeu que eu não podia lhe dar essa garantia. ― O que está acontecendo?

Eu imaginava que papai já tivesse tomado conhecimento de todos os problemas que eu estava tendo. Que entrar em confusão na escola, ser expulsa, explodir o hospital e depois fugir, teriam sido os estopins para motivar a mamãe a chamá-lo.

― Eu estou com sérios problemas agora, pai, mas não tenho como explicar…

Daril segurou minhas mãos entre as suas. Eu ainda pude sentir o contraste da pele inicialmente quente dele contra a minha pele gelada aos poucos ir diminuindo enquanto a temperatura dele caía, e o repentino estremecimento dele. Ele também havia percebido a diferença.

― Minha querida, qualquer coisa que tenha acontecido, eu não vou poupar esforços em te ajudar, mas eu preciso saber o que houve…. você está congelando! Está pálida…. e parece cansada como se tivesse corrido por horas…

Eu ainda permaneci calada olhando para as nossas mãos juntas.

Não era que eu não quisesse contar.

Porém nada do que tinha acontecido nos últimos dias fazia parte daquelas memórias confusas que eu comecei a ter. Os fatos estavam claros em minha memória e definitivamente tinham acontecido. Então, como falar? Como explicar algo definitivamente mais assustador que uma falsa lembrança de outro planeta?

Como explicar que estava condenada à morte com um artefato mágico poderosíssimo pelo nada carismático Imperador da Galáxia em pessoa, Marco Gionardi, e que tinha conhecido o lendário bioengenheiro médico Henry Siever, que por acaso não passava de um jovem grosseiro potencialmente instável e que tinha estado ali naquela sala até pouco tempo antes da minha mãe chegar?

Eu só consegui perceber que as lágrimas estavam escorrendo quando meu pai soltou uma das mãos para enxugar. Agora ele parecia realmente assustado e preocupado.

― Me desculpe, me desculpe… ― Eu encostei a testa no ombro dele, e me aninhei num abraço. Era vergonhoso admitir que eu estava precisando de algum conforto, e Daril estava sempre disposto a dar ― Não tem como eu explicar… não tem como acreditar! Eu não fiz nada de errado, juro que não fiz, mas mesmo assim tudo isso aconteceu… eu não quero morrer, pai…

Daril já estava temeroso antes, mas agora ele entrou em pânico. Eu pude sentir apenas pela intensidade do abraço. Mas ele apenas esperou eu me acalmar, e assim que consegui conter os soluços que brotaram fortes na garganta, contei minha desventura. Contei cada detalhe de minha chegada até o palácio e meu retorno às pressas com Henry. Apenas tomei cuidado de não lhe contar que minha condenação tinha sido causada pela tal Relíquia da Criação, assim como minha ida àquele lugar. Ao fim, mostrei a ele o tradutor, que carregava no bolso, e a leve marca nos pulsos onde antes tinham estado as feridas causadas pelas correntes.

Daril não disse nada. Eu não soube dizer se ele tinha acreditado, ou sequer entendido. A pele dele já estava fria como a minha e ocasionalmente ele estremecia, mas mesmo assim, ele não me libertou do abraço. Ficamos assim, por um tempo, até que finalmente mamãe pareceu ter perdido a paciência de esperar do lado de fora, e voltou.

Eu obviamente supunha que mamãe já deveria ter dado a versão dela de todos os causos, e também não tinha esperanças que meu pai fosse acreditar em mim, ainda mais tendo contado que tinha estado na companhia de tal grande Imperador de toda a Galáxia. Era inacreditavelmente surreal.

Porém, eu precisava desabafar, e não tinha me sobrado nenhum amigo. Pelo menos o medo estava me consumindo menos agora. Eu só conseguia me sentir cansada, realmente exausta, fraca e terrivelmente com sono. Daril se afastou gentilmente. Tinha a expressão séria, mas tentou sorrir para mim. Olhou para Alya brevemente e saiu, sem dizer nem comentar nada.

― Que aconteceu? ― Alya perguntou confusa. ― Que disse a ele? ― Mas ela entendeu que a reação também havia me deixado surpresa, ao me ver contemplar boquiaberta a porta por onde Daril tinha saído ― Esqueça… vá tomar um banho quente, e volte para seu quarto. Depois vou ligar para ele.

Eu corri ao banheiro e me joguei debaixo do chuveiro, usando a temperatura mais quente da água, que já divergia tanto da minha pele, que o primeiro contato pareceu fogo, mas logo veio o alívio. O calor entrava aos poucos, e me aquecia minimamente de fora para dentro, enquanto o frio crescia de dentro para fora. Eu poderia ficar ali para sempre.

A noção de tempo só me voltou quando ouvi as batidas da minha mãe na porta.

― Ainda está viva ai dentro?

― Já vou sair… ― respondi e a contragosto desliguei o chuveiro. O frio foi voltando furiosamente para a pele.

Mamãe tinha deixado uma muda de roupas pendurada na maçaneta da porta. Eu me troquei, peguei o cobertor e me encolhi na cama. Já tremia de novo e sentia muito sono. Dormi sem nem lembrar que não havia comido.

Sentia-me cansada demais até para sentir fome, e mesmo abrir os olhos parecia impossível. Ficar ali, parada em baixo do cobertor de repente se tornou a ideia mais convidativa de toda a vida. Registrei feliz que não precisava sair do quarto para nada se provavelmente ainda estava de castigo, e ali fiquei.

Já era noite quando finalmente comecei a me sentir aquecida e descansada. Quando acordei, pude registrar o motivo: Siever estava ali sentado na cama, do meu lado, encostado na cabeceira. Ele tinha posto minha cabeça apoiada em suas pernas e estava concentrado usando um óculos gerador de realidade aumentada.

― Desde quando está ai? ― sussurrei surpresa e encabulada.

― Pouco tempo… quinze, vinte minutos. ― Ele não desviou os olhos por trás das lentes, parecia muito concentrado.

― Você invadiu meu quarto de novo…

― Algo contra? ― ele respondeu sem dar atenção realmente, então não tive como responder mais. Não era como se ele fosse fazer nada ruim contra mim, porque se ele quisesse, oportunidades não faltaram até agora, então voltei a fechar os olhos e dormi pesadamente aproveitando o calor que irradiava intensamente para mim.

Quando acordei novamente já era tarde da manhã seguinte. Siever ainda estava na mesma posição que me lembrava, mas havia um prato de café da manhã para mim sobre a mesinha.

― Você ficou aí a noite toda? ― perguntei, bebericando o copo de suco.

― Não… tive que sair umas duas vezes… ― ele respondeu distraído. Ainda consultava o gerador de realidade aumentada. ― Sua mãe e seu irmão vieram aqui ver você antes de saírem. Depois seu irmão voltou em casa e deixou esse prato para você.

― Muito delicado da parte dele, para quem não fala comigo desde que entrei de castigo a primeira vez… ― acabei nem limpando o prato. Agora que me sentia mais aquecida, me sentia mais disposta ― Que tanto olha ai?

Henry levantou a mão pedindo um momento, e não respondeu por um tempo. Quando por fim reagiu, retirou o gerador de realidade aumentada, levantou-se alongando os braços, e serviu-se de um dos biscoitos do prato.

― Estava aprendendo a medicina de seu planeta… não é muito evoluída, mas tem várias particularidades relativas aos seus biotipos… deve me servir de qualquer forma.

― Como assim aprendendo? Não é muita coisa pra se aprender assim? ― Eu questionei, mas suspeitei que ele não fosse responder, como sempre, quando eu fazia alguma pergunta sobre as habilidades que ele tinha. E como suspeitei, ele nada disse. Ele enfiou o resto do biscoito na boca e balançou a mão, como se dissesse para deixar pra lá ― Enfim… descobriu como vai… me salvar?

Siever me encarou como se avaliasse o quê ou como iria contar. Ele não tinha sido muito delicado em passar certas notícias até agora. Eu até imaginei como pude ter esperado mais tato dessa vez, quando ele disse:

― Pra falar a verdade não. Então resolvi revisar a medicina de vocês pra descobrir a forma mais fácil de tirar a sua vida.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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