DCC – Capítulo 1 – 3Lobos

DCC – Capítulo 1

As memórias e os sonhos

 

Olhando pra trás agora, eu podia ver claramente como as coisas que aconteceram foram tão absurdas. Aquele frio assustador entrou em meus ossos e parecia que iria quebrar meu corpo em cacos de gelo. E se ontem eu só estava no pior dia da minha vida, agora eu acho que vou morrer.

Quando acordei ontem, o sol já ia alto. Nem lembrava de ter ido dormir. É claro que estando trancada naquele quarto, eu não tinha muitas opções do que fazer com o meu tempo. E agora que eu parei para relembrar, era até cômico como tinha chegado nesse nível, isso para não dizer trágico.

Há uns quatro meses mais ou menos comecei a ter sonhos estranhos e, às vezes, assustadores. Não teria sido um grande problema (afinal todos têm pesadelos de vez em quando), se eu não tivesse começado a confundir esses pesadelos com a realidade. De repente eu passei a ter memórias de coisas que nunca fiz e de lugares onde nunca fui.

As vezes eu precisava até mesmo relembrar que eu era… justo eu, Alésia Latrell, a criatura mais normal que já andou por Sátie. Não que eu tivesse a honra de ser normal do tipo sem graça, pois sempre tive meus destaques, mas eu realmente não queria me destacar agora por ter ganhado a fama de mentirosa e louca. Mais cedo naquela semana, minha mãe me arrastou ao psiquiatra para fazer os exames. Apenas pela descrição básica dos meus “sintomas”, ele disse que muito provavelmente era um quadro de esquizofrenia.

Eu não concordava. Mas também não dava para simplesmente discordar. Eu realmente estava tendo alguns lapsos de memória e mudanças de comportamentos, e na maior parte dos casos, lembranças de coisas que nunca aconteceram, às vezes me sentindo como se fosse uma pessoa completamente diferente. Se ao menos eu tivesse ficado calada…

Depois de alguns comentários infelizes que fiz sobre coisas que nunca aconteceram comigo, consegui reunir uma boa quantidade de fama ruim. Então depois da internação, eu iria passar a ser taxada de louca com certeza e isso iria redefinir minha interpretação de inferno social, se é que eu ainda teria alguma vida social. Eu não era uma menina ruim, nunca nem fui considerada feia.

Quando eu me levantei do leito, e me olhei no espelho no apartamento do hospital, pude ver minha aparência, da qual nunca tive por que reclamar. Sempre gostei dos meus cabelos castanhos ondulados e curtos, das minhas bochechas altas e minha pele cor de caramelo… eu até tenho um bom corpo, apesar de ser baixinha! Eu também nunca tive gostos esquisitos e nunca apareceu ninguém para  dizer que eu era entediante. Poxa, eu era normal, com gostos normais e sonhos normais. Mas infelizmente pra acabar com a minha paz tinham que ter aqueles infelizes momentos de “mentiras”.

Quem em sã consciência conta mentiras? Se bem que estão achando que eu não sou mais sã. Nos dias de hoje, com tantas câmeras em todos os lugares, onde tudo é registrado e tudo pode ser e será confirmado, mentir é o fundo do poço, o limiar da falta de ética. Qualquer um sabe disso. É quase uma tentativa de suicídio, porque se alguém for pego mentindo é desmoralizado para sempre, e às vezes rola até prisão.

E, para a minha glória pessoal, eu fui pega “mentindo”! Quero dizer, eu não tinha a intenção de contar mentiras… por que eu iria querer isso? Mas também eu não podia negar que toda vez que eu abria a boca pra falar sobre certos temas, as informações simplesmente saiam, e me davam uma sensação confusa que misturava a minha realidade com esses sonhos.

Eu nunca estive nas planícies escaldantes dos desertos de Galac 6, o décimo quarto planeta oficial do Conglomerado Imperial da Galáxia, ou sequer apreciei a vista dos penhascos de Métis, mas quando o assunto surgiu eu simplesmente tive que dar as informações dos lugares sem nunca ter pesquisado a respeito. Porque eu simplesmente não fiquei calada?? Mas quem acreditaria que eu não tive a intenção de mentir? Eu mesma, naqueles momentos podia sentir… podia acreditar que tinha estado naqueles lugares, mesmo admitindo que nunca saí do meu planeta natal, Sátie… Como eu poderia dizer que não estava enlouquecendo?

Minha família nunca teria condições para pagar tantas viagens interplanetárias, então, mesmo que eu não tivesse ido atrás de confusão, assim que meus colegas perceberam esse enorme furo nas minhas histórias, trouxeram a confusão até mim. Eu fui mesmo muito idiota, porque no começo, eu não percebi que eles estavam se aproveitando dos meus delírios para rir de mim, até que fizeram isso às claras e me “desmascararam” no pátio, para todo mundo da escola que ainda não tinha visto poder ver.

Doía só de lembrar. Aquelas pessoas hipócritas… Mas a culpa também era minha, eu dei margem para eles, e o pior é que eu tinha que admitir, que se não fosse comigo, eu provavelmente estaria rindo da cara de algum infeliz que sofresse o mesmo mal.

A pior parte, foi que antes de cogitarem a minha insanidade, eles começaram achando que eu estava simplesmente mentindo. Ser “a mentirosa” era muito pior do que ser “a louca”.

Quando Alya, minha mãe, recebeu a primeira notificação da escola avisando sobre meu “comportamento subversivo”, minha influência de “interesse danoso aos demais jovens”, e “de cunho comprovadamente inverídico”… Ah, eu nunca vi ninguém tão furiosa. Todo e qualquer privilégio que eu tinha foi cortado, e de acordo com as promessas dela, eu estarei de castigo para sempre, mesmo que eu já tenha quase idade para morar sozinha.

Eu não poderia mais acessar a iLife, e tive meu Link pessoal de acesso à macronet confiscado (isso por si só já era a morte social para qualquer um) e nem tinha mais permissão de sair de casa sem ser para a escola. E a escola tinha me feito exigências expressas de nunca mais me expressar publicamente ou tentar persuadir qualquer colega sobre minhas ideias (e eu nem lembro de ter feito ou tentado fazer isso).

Então depois de meses tendo que ouvir chacotas daqueles imorais que antes se diziam meus amigos, eu comecei a perder a paciência. Não que eu já tivesse sido violenta em algum momento da minha vida, mas ouvir a provocação de Ananias sussurrando ao meu ouvido que eu devia dar a minha “opinião mentirosa e nojenta” sobre a Grande Guerra Xenofóbica, causada pela rejeição da imigração das raças Brard pelas raças Jomons, as duas grandes espécies de humanos da galáxia, assunto de História Contemporânea que o professor Edson ministrava naquele momento.

Eu sequer parei para pensar (e é por que eu tinha realmente minha própria opinião delirante sobre a guerra, que era diferente da forma didática ensinada na escola), simplesmente me joguei pra cima de Ananias, e tentei com todo o meu empenho desfigurar completamente aquele rosto seboso de gente inútil dele, com toda a força que eu tinha nas unhas.

Ananias precisou ir urgentemente ao pronto socorro com um olho inchando perigosamente acima da bochecha cheia de arranhões ensanguentados, além de mais três colegas e o professor, que precisaram se esforçar muito para me tirar de cima dele, isso sem conseguirem escapar das minhas unhadas indiscriminadas. É claro que eu pedi desculpa ao professor. É claro que eu não pedi desculpa aos outros (todos eles mereceram por causa de algum momento). É claro que eu tive sorte de não prestarem queixa contra mim. É claro que a diretoria enviou uma notificação severa para minha mãe recomendando um psiquiatra. E, é claro…. fui expulsa.

Que mais eu poderia fazer agora além de lamentar ou rir de mim mesma? Nem sequer quis voltar a mostrar minha cara em público. Uma enfermeira havia deixado meu triste café da manhã sem gosto na mesa ao lado da porta. Ela sequer me dirigia a palavra e evitava aparecer enquanto eu estivesse acordada. Com certeza me internar foi a pior forma de me punir que mamãe pensou além de “castigo para sempre”. Já tinham se passado dois dias, e nem ela nem meu irmão Alan vieram me visitar. Aposto que ela sequer havia avisado meu pai, Daril.

Era nesse dia, porém, que o médico ia trazer os resultados dos exames, que provavelmente confirmava que eu sofro de algum desvio de comportamento grave, mesmo que não seja esquizofrenia. Eu não podia dizer que estava animada. A alternativa é confirmarem que eu sou uma mentirosa, o que seria muito pior. Virei o corpo pro lado da janela. Imaginei que lugar seria aquele que escolheram para exibir por ela hoje. Nunca escolhiam boas paisagens para exibir. E de fato, a janela mostrava apenas um jardim sem graça, com um muro alto e próximo.

Suspirei, entediada, e ouvi a câmera voltar a desligar. Ela sempre me acompanhava quando eu me movia, flutuando a poucos metros de mim. Acho que nunca mais teria direito à tentar conquistar qualquer privacidade na vida, se é que eu poderia chamar de vida o que viria daqui pra frente. Me levantei para comer, remotamente consciente da lente me seguindo. Adoraria poder pedir para a enfermeira aumentar a temperatura, se ela me desse o luxo de me dirigir a palavra.

Eu estava congelando naquele quarto, então eu tinha certeza que ela devia por alguma coisa na minha comida para me deixar assim. Eu estava sempre com tanto frio e sono, que assim que terminava de comer, dormia até já ter passado da hora do almoço, então mesmo que ela se mostrasse interessada em falar comigo, eu estaria sempre dormindo.

Mamãe chegou uma hora mais cedo do que a consulta. Não achei que ela tiraria tempo para me visitar, mas lá estava ela, com uma cara de quem queria estar indo para uma guerra em vez de estar ali em um hospital comigo. Jogou a bolsa na mesa e se aproximou. Ela não disse nada. Então eu também não. Me olhou de cima a baixo algumas vezes, então resmungou ordens para o Link pessoal dela com a macronet, e saiu do quarto.

Eu poderia xingar usando todos os palavrões que eu conhecia, se não fosse pela maldita da câmera. Era muito frustrante que nem minha própria mãe falasse comigo. E o que diabos havia de errado com esse lugar? Por que era sempre tão frio?

Me levantei, tentando me aquecer um pouco… foi quando pensei pela primeira vez que o universo me odeia. Do nada (e eu digo, do nada mesmo!) as coisas começaram a explodir dentro do quarto. Primeiro a câmera, depois a janela, depois o controle e as máquinas de monitoramento da cama, e até a bolsa da mamãe. Começou a chover cacos, faíscas e estilhaços para todo lado.

— Mas que merda!? — Eu me encolhi com os braços sobre a cabeça e comecei a gritar por socorro. Mas que palhaçada era pedir por socorro numa ala psiquiátrica de um hospital? Era comum ouvir os outros pacientes gritando do nada as vezes, eles não atendiam muito rápido, por que achavam que era apenas outro louco surtando, mas eu tive esperança de que viessem rápido, porque o barulho das explosões, mesmo que pequenas, foi muito alto.

A cama estava começando a pegar fogo quando duas enfermeiras chegaram primeiro. Uma delas começou a pedir ajuda pelo Link e a outra me agarrou e me puxou pra fora do quarto. Logo mais funcionários apareceram de todos os lados, um segurança e vários visitantes curiosos.

Eu estava tremendo, coberta de cacos da janela de cima a baixo. Outros dois enfermeiros que eu não conhecia me pegaram pelo braço e me escoltaram até uma enfermaria vazia.

— O que você fez? — eu ouvi um deles perguntar.

— Não fiz n-nada! Tudo explodiu sozinho…. eu não sei o q-que aconteceu! — gaguejei em resposta.

Eles não acreditaram. É óbvio que não acreditaram. Eu lembrei da câmera explodindo primeiro, por que justo ela? Minha pele ardia em alguns lugares arranhados pelos cacos da janela. Ainda dava para ouvir a correria do lado de fora, enquanto os demais funcionários tentavam contornar os problemas.

— Conte para nós exatamente o que aconteceu! — exigiu um recém chegado, com a voz firme. Olhei para a roupa dele, e era um uniforme de médico.

— E-eu não sei! Eu levantei para t-tentar me aquecer, e do nada, tudo c-começou a explodir… — até minha voz tremia agora — porque está tão frio aqui?

Os três na sala se entreolharam com resignação. O enfermeiro que estava na porta, inclusive, balançou a cabeça em negação. Esperei o médico falar, completamente assustada, confusa e congelando de frio.

— A temperatura está boa. Ela é sempre ajustada em 22ºC durante o dia, como agora. Não está fazendo frio — ele explicou com um tom de voz calmo e compreensivo como quem explica para uma criança que já acabou a hora de brincar. — Espere um pouco, eu volto em uns minutos… — disse se levantando e saindo da sala com um sinal para os dois enfermeiros.

Ele provavelmente iria fazer algum comentário para eles, que julgava que eu não deveria ouvir. Eu realmente devo ter problemas sérios, porque estava com muito muito frio mesmo. Então quando eu achei que não iria suportar mais, ouvi os estalos fortes dos aparelhos explodindo novamente dentro da sala. Eu pude apenas fechar os olhos, me encolher e esperar não ser atingida por nada. Mas então, acho que simplesmente perdi a consciência enquanto me sentia ser sugada por aquele frio gigantesco.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.
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