Arifureta – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 4 de 11) – 3Lobos

Arifureta – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 4 de 11)

Capítulo II: O Monstro do Abismo (Parte 4 de 11)

 

Quatro dias já tinham passado desde que o Hajime tinha caído da ponte.

Nesse tempo ele mal tinha se movido, tirando o sustento que precisava da Gema Divina. Contudo, embora a Ambrósia pudesse manter um homem vivo por si mesma, menos das mais terríveis condições, ela não podia saciar sua fome. Embora não pudesse morrer, o Hajime sofria constantes dores de fome, juntamente com a dor fantasma que percorria seu braço esquerdo inexistente.

Por que isso está acontecendo comigo? Essa questão tinha sido algo que ele constantemente pensava.

Ele não conseguia dormir por causa da dor e da fome, e se bebesse mais Ambrósia, tudo o que fazia era o deixar mais lúcido para sentir a dor mais intensamente. Uma e outra vez, sua fadiga o levou para o limite da consciência, só para a dor e a fome o atrair de volta. E então, para escapar da dor ele iria beber mais Ambrósia, que apenas traria mais dor. Ele tinha repetido esse ciclo mais vezes do que poderia contar.

A dada altura, o Hajime parou de beber completamente a Ambrósia. Ele tinha escolhido inconscientemente a maneira mais rápida de acabar com sua dor.

— Se tudo o que me espera é a dor eterna… então eu também poderia… — Ele murmurou para si mesmo, claramente derrotado, e deixou sua consciência escapulir.

Três dias depois disso.

A dor que tinha passado a um determinado limiar tinha mitigado por um tempo, mas isso era simplesmente a calmaria antes da tormenta. Sua fome voltou com força total, e as dores excruciante torturavam continuamente seu estômago. A dor fantasma continuou também, atormentando o Hajime o tempo todo. Parecia como se suas unhas estivessem lentamente sendo arrancadas uma a uma, e depois sal fosse jogado em suas feridas abertas.

Eu… ainda não morri…? Aaah… Por favor, por favor… Eu só quero viver… Ao mesmo tempo que desejava a morte, ele ainda se agarrava instintivamente à vida. Seus pensamentos começaram a se contradizer. O Hajime não era mais capaz de pensar racionalmente. Seus murmúrios delirantes já não faziam nenhum sentido.

Outros três dias passaram.

Sem o auxílio da Ambrósia, ele iria caducar em mais dois dias. Ele não tinha bebido nada durante esse tempo também, então sua sede se misturou com a sua fome.

Contudo, um curto período há pouco, em torno do oitavo dia desde que descobriu a Gema Divina, uma mudança estranha de mentalidade tinha começado. Oscilando entre o desejo de morte e rezando pela salvação, sua mente tinha começado a distorcer, e pensamentos sombrios começaram a nascer no subconsciente do Hajime.

Como um limo, ele tinha escorrido lentamente pelas rachaduras no seu coração causado pelo seu sofrimento, e devorou lentamente sua alma.

Por que tenho que sofrer tanto…? O que eu fiz para merecer isso? Por que eu… Por que é que isso acabou assim? Deus simplesmente me raptou e me jogou nesse lugar… E depois meus colegas me traíram… Fui desprezado por um coelho… E depois aquele bastardo comeu o meu braço… Seus pensamentos continuaram a ficar mais sombrios. Como uma tinta preta se espalhando lentamente por um pergaminho branco, o coração puro do Hajime ficava lentamente maculado.

Alguém era o culpado, alguém tinha pressionado essa injustiça sobre ele, alguém tinha o machucado assim. Sua mente começou a procurar um inimigo para odiar. A dor, a fome e a escuridão desgastaram lentamente a sanidade do Hajime. Seus pensamentos sombrios continuaram a aumentar.

Por que é que ninguém vem para me salvar? Se ninguém está vindo me salvar, o que devo fazer? Como posso fazer essa dor desaparecer? No nono dia, o Hajime estava tentando encontrar uma saída para sua situação desagradável.

Os pensamentos de como escapar da dor era tudo o que o preenchia, e mesmo a raiva e o ódio foram se esgotando lentamente. Não havia tempo para se apegar a tais sentimentos insignificantes. Porque não importava o quanto ele se encolerizasse contra seus inimigos, a dor do Hajime nunca diminuía. A fim de escapar da situação absurda e irracional a que ele estava preso, os sentimentos desnecessários tinham de ser descartados.

O que eu quero? Eu quero viver. E o que me impede de viver? O inimigo. E quem é o inimigo? Todos e tudo o que se meter no meu caminho, tudo o que jogou esse destino irracional em mim. Então o que é que eu deveria fazer? Eu deveria… Eu deveria…

O décimo dia. Ambos o ódio e a raiva tinham desaparecidos do seu coração. O deus injusto que o empurrou para esse mundo, o colega que o traiu, os monstros que queriam o matar… mesmo o sorriso da garota que disse que ia o proteger… todos deixaram de ter importância.

Comparado com a necessidade urgente de sobreviver, os sentimentos tão pequenos não significavam nada. A vontade do Hajime se fortificou em um ponto. Como a ponta de uma espada forjada no fogo do inferno. Afiada, forte e capaz de cortar qualquer coisa.

E a sua vontade desejava… Os matar. Não havia ódio, hostilidade ou raiva nessas palavras. Apenas uma simples constatação de um fato. Para conseguir viver, ele tinha que matar.

Qualquer coisa que ameaçasse sua vida era um inimigo. E todos os inimigos deveriam ser… Mortos. Matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar matar. Para conseguir escapar à fome implacável, ele tinha que os matar e comer. Foi nesse momento em que o gentil e calmo Hajime Nagumo, o Hajime que ignorava tudo com uma desculpa e um sorriso, o Hajime que a Kaori tinha vindo a admirar, deixou de existir.

E o novo Hajime Nagumo, que estava disposto a massacrar impiedosamente qualquer coisa que ficasse em seu caminho, tinha nascido.

Sua alma despedaçada tinha se reformado mais uma vez. E não foi com mero pedaços colados, uma alma reparada apressadamente. Não, essa era uma alma reforjada na escuridão e desespero do inferno, uma alma temperada com dor e instinto. Uma alma mais dura que o aço.

O Hajime moveu lentamente seu corpo debilitado até a cavidade onde a Ambrósia tinha transbordada, depois a lambeu como um cachorro. Sua fome e dor ainda permaneciam, mas seu corpo recuperou o seu vigor.

Depois ele limpou bruscamente sua boca, com seus olhos cintilando ferozmente com um sorriso estranho se espalhando no rosto. Seus caninos espreitavam através do seu sorriso cruel. Foi uma mudança súbita completa do tipo de pessoa que ele tinha sido antes.

O Hajime se levantou, e começou a murmurar enquanto transmutava o chão.

— Eu vou os matar.

Os Lobos Cauda-dupla fizeram as suas tocas em certas partes no piso do labirinto. Eles normalmente se moviam juntos em bandos de quatro a seis. Sozinhos, eram os mais fracos dos monstros que vagueavam pelo piso, então eles sempre atuavam em grupos. Essa alcateia não era exceção, e era um bando de quatro.

Eles contornavam de pedra a pedra, vigilantes aos seus arredores, à procura de um terreno de caça adequado. Os Lobos Cauda-dupla geralmente preferiam emboscar suas presas.

Eles andavam pelos corredores por um tempo até encontrarem o que eles consideravam um local de caça adequado e se escondiam atrás das diferentes rochas. Tudo o que restava era esperar por uma presa cair na armadilha. Um dos lobos passou entre uma pequena fenda em uma pedra próxima e a parede, assim eliminando sua presença. Ele lambeu os lábios antecipadamente, imaginando a carne que seria em breve deleitada, quando de repente sentiu um sentimento bastante estranho de desconforto.

Como a chave da sobrevivência dos lobos eram a sua cooperação, os membros de uma alcateia partilhavam uma ligação peculiar entre si. Não era tão simples como telepatia, mas eles eram basicamente capazes de saber o que o resto da alcateia estava fazendo e onde estavam. E foi essa ligação que alertou o lobo. Eles estavam em um bando de quatro, e ainda assim o lobo só podia sentir dois dos seus outros companheiros. O lobo que deveria ter estado esperando do outro extremo do corredor de repente desapareceu.

Desconfiado, o lobo lentamente se levantou, quando subitamente outro dos seus camaradas uivou. O lobo que estava escondido no mesmo lado da parede daquele que tinha desaparecido, estava sentindo uma sensação de impaciência. Ele foi apanhado em alguma coisa e tentava escapar, mas parecia incapaz de conseguir.

Os dois lobos do outro lado do corredor se levantaram para ir à sua ajuda. Mas, então, a presença do lobo se esforçando de repente desapareceu também.

Confusos, os dois lobos foram correndo para o outro lado, mas não encontraram nada. Desnorteados com o desenrolar dos acontecimentos, os dois lobos colocaram seus focinhos próximos ao chão e começaram a farejar a região que seus membros do bando tinham estado momentos atrás.

De repente, o chão sob eles começou a ceder, e as paredes a ressaltar para os envolver. Eles tentaram pular, mas antes que pudessem, o chão á volta das suas patas se ergueu e as aprisionou. Normalmente, os lobos poderiam ter conseguido facilmente destruir tais grilhões frágeis. Se eles não tivessem estado confusos com a situação incomum, eles nunca teriam sequer caído em tais armadilhas simples.

Todavia, seu agressor tinha predito a confusão deles, bem como a sua hesitação. E os seus poucos momentos preciosos de confusão foram suficientes para os encurralar.

— Graaaah!? — Os dois lobos uivaram furiosamente quando se viram rapidamente presos dentro da parede… Depois a parede os engoliu inteiros, e só os ecos dos seus gritos permaneceram.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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