Arifureta – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 10 de 11) – 3Lobos

Arifureta – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 10 de 11)

Capítulo II: O Monstro do Abismo (Parte 10 de 11)

 

Vamos voltar no tempo algumas semanas.

A Shizuku Yaegashi olhava pesarosamente para sua amiga ainda dormindo. Aos heróis invocados tinha sido concedido quartos privados no Palácio Heiligh, e a Shizuku estava atualmente descansando em um deles.

Já havia passado cinco dias desde a luta desesperadora de vida e morte no labirinto. Eles tinham descansado uma noite na pousada Horaud antes de pegarem uma carruagem expressa de volta ao palácio. Depois de terem provado a morte e o desespero, os estudantes não estavam em condições de prosseguir com seu curso prático de formação. Além disso, mesmo se ele tivesse sido tratado como um parasita inútil, um membro do grupo de heróis tinha morrido, e esse fato precisava ser reportado ao rei e a Santa Igreja.

E embora eles soubessem que estavam sendo cruéis, os cavaleiros não podiam permitir que o espírito de luta dos heróis quebrasse. Eles tinham que restabelecer a estabilidade mental dos estudantes antes que suas mentes se rompessem completamente.

Quando a Shizuku se recordou dos acontecimentos que tinham ocorrido desde a morte do Hajime, parte dela desejava que a Kaori acordasse rapidamente, enquanto a outra parte esperava que ela apenas dormisse para sempre.

Cada pessoa que ouviu o relatório da morte do Hajime ficou inicialmente chocado porque um membro do grupo de heróis tinha morrido, e depois ficava aliviada quando souberam que foi só o “inútil” Hajime.

Até mesmo o rei e o Ishtar reagiram de forma semelhante. Um dos heróis poderosos que salvaria essa nação não poderia ser aceito morrer em uma masmorra. Alguém que não podia sobreviver a uma excursão à masmorra não teria qualquer chance contra os demônios, e serviria apenas para espalhar ainda mais desconforto entre as pessoas. Os mensageiros de Ehit, os heróis trazidos de outro mundo, tinham de ser invencíveis.

Pelo menos o rei e o Ishtar tinham sido um pouco respeitosos. Houveram alguns nobres no palácio que tinham insultado e menosprezado o Hajime pelas costas em vez disso.

Obviamente eles não disseram nada publicamente incriminatório, mas quando estavam falando em particular dentre os amigos nobres, muitos deles tinham sussurrado escárnio sobre ele. Todos os menosprezaram com declarações como “Graças a deus foi o inútil que morreu”, e “Ainda bem que o incompetente foi eliminado dos mensageiros de Deus”. A Shizuku tinha tremido de raiva quanto tinha ouvido tamanhos comentários maliciosos, e tinha quase entrado em conflito com esses nobres várias vazes.

E se o Kouki não perdesse o controle antes dela, ela provavelmente os teria espancado até sangrar. Devido aos protestos acalorados do Kouki, o rei e a Santa Igreja aparentemente decidiram que seria perigoso deixar uma opinião negativa sobre o Hajime se espalhar. Assim sendo, eles silenciosamente lidaram com quem falava mal dele… Não obstante, tudo isso serviu para fazer aumentar a popularidade do Kouki. A maioria das pessoas viram a raiva do Kouki como prova de que ele era bondoso o suficiente para se importar mesmo com o mais fraco do seu grupo, e a opinião geral de que Hajime tinha sido nada mais que um fardo para um herói tão nobre, permaneceu consolidada nas mentes das pessoas.

Apesar do fato de que a única razão pela qual os outros ainda estivessem vivos foi porque o Hajime tinha contido um monstro que nem mesmo o grande herói Kouki tinha sido capaz de tocar. Tirando o fato de ele estar morto porque algum colega idiota tinha lançado uma bola de fogo perdida que tinha o atingido.

Entretanto, como se por um acordo tácito, todos os alunos concordaram em não falar sobre essa bola de fogo perdida. Todos estavam certos de que tinham mantido perfeitamente o controle sobre as suas magias, mas tinha sido uma verdadeira tempestade de feitiços, e ninguém queria considerar a possibilidade que poderia ter sido a sua bola de fogo que tinha conduzido ao fim do Hajime. Porque se tivesse sido eles, eles se tornariam assassinos.

Como consequência, todos eles fecharam seus olhos para a realidade, escolhendo no lugar fingir que foi algum erro por parte do Hajime que tinha o levado à morte. Afinal, mortos não contam histórias. Em vez de se preocupar com quem tinha matado o Hajime, era de longe mais fácil fingir que ele tinha morrido devido aos seus próprios erros. Assim, nenhum deles teria de se preocupar. Sem qualquer conluio da parte deles, os alunos chegaram a essa conclusão, e assim, o tópico não foi debatido.

A fim de descobrir a verdade por trás da morte do Hajime, o Capitão Meld decidiu que seria necessário interrogar os alunos. Ele não achava que a verdade fosse algo tão inocente quanto uma bola de fogo perdida. E mesmo que fosse, isso era mais uma razão para descobrir a verdade, para que ele pudesse dar ao estudante que tinha matado o Hajime acidentalmente o aconselhamento que ele precisava.

Quanto mais tempo a questão permanecesse instável, mais problemas isso causaria no futuro. E acima de tudo, o Capitão Meld só queria saber. Apesar de ele ter prometido salvar o Hajime depois que eles fugissem para um lugar seguro, suas palavras tinham se mostradas tão vazias quanto como ele se sentia agora.

No entanto, o Capitão Meld não foi autorizado a avançar com seu plano. Porque o Ishtar tinha o proibido de questionar os estudantes. Ele tinha protestado calorosamente contra essa proibição, mas mesmo o rei o proibiu de se reunir com eles, então ele não tinha escolha senão obedecer.

— Se você soubesse… ficaria furiosa, não é? — A Shizuku sussurrou calmamente, então pegou a mão da Kaori. Ela não tinha acordado desde aquele dia no labirinto.

Segundo o médico, não havia nada de errado com ela fisicamente. Ela tinha, aparentemente, apenas caído em um sono autoimposto para se proteger do choque mental. O médico tinha dito que ela iria despertar por conta própria eventualmente.

A Shizuku agarrou firmemente a mão da Kaori e rezou a ninguém em particular: — Por favor, não deixe que nenhum outro mal venha à minha amável e gentil amiga. — E com essas palavras, a mão da Kaori se contraiu ligeiramente.

— Hã!? Kaori!? Você consegue me ouvir!? Kaori! — A Shizuku gritou seu nome repetidamente. Eventualmente, as pálpebras da Kaori começaram a vibrar. A Shizuku continuou chamando o nome da sua melhor amiga. Como se respondendo as palavras dela, os dedos da Kaori envolveram a mão da Shizuku. E vagarosamente, ela abriu os olhos.

— Kaori! — A Shizuku se inclinou sobre a cama e olhou para a Kaori, com lágrimas nos olhos. A Kaori olhou em volta desorientadamente, antes de sua mente finalmente começar a funcionar, e seus olhos caíram sobre a Shizuku.

— Shizuku-chan?

— Sim, sou eu. Shizuku. Como está se sentindo, Kaori? Está com dor em algum lugar?

— N-Não, estou bem. Meu corpo parece um pouco pesado… mas é provavelmente porque eu dormi por tanto tempo…

— É isso mesmo, você dormiu por cinco dias inteiros… então é normal se sentir um pouco entorpecida. — A Shizuku se apressou em ajudar a Kaori, que estava tentando se levantar, e sorriu tristemente quando ela disse quanto tempo ela tinha dormido. A Kaori começou a agir estranhamente quando ouvi isso.

— Cinco dias? Como eu dormi… por tanto tempo… Eu pensei que estava no labirinto… e então eu… — Quando ela viu os olhos da Kaori ficarem cada vez mais distante, a Shizuku entrou em pânico e tentou rapidamente mudar de assunto. Todavia, as memórias da Kaori voltaram antes que a Shizuku pudesse dizer qualquer palavra.

— E então… Ah… O que aconteceu com o Nagumo-kun?

— …Bem…

A Shizuku fez uma careta, incerta de como explicar. Da expressão aflita da Shizuku, a Kaori foi capaz de supor que o pesadelo que ela viu em suas memórias foi realmente verdade. Contudo, a Kaori ainda era incapaz de aceitar essa dura realidade.

— …Isso não pode ser verdade. Por favor, me diga que é uma mentira, Shizuku-chan. Vocês salvaram o Nagumo-kun depois que desmaiei, certo? Certo? Me diga que sim. Estou no castelo agora, certo? Todos nós voltamos em segurança ao castelo, certo? O Nagumo-kun só… está fora treinando, certo? Ele está na praça de armas, certo? Certo, tem de estar… Eu irei verificar agora mesmo. Eu tenho que agradecer a ele… então você pode me deixar ir, Shizuku-chan?

Divagações incoerentes foram expelidas pela boca da Kaori enquanto ela tentava se levantar e ir procurar pelo Hajime, mas a Shizuku agarrou firmemente o braço da Kaori e se recusou a deixá-la ir.

Apesar da expressão angustiada da Shizuku, ela manteve sua mão agarrada fortemente nos braços da Kaori.

— Kaori… Você entende, não entende…? Ele não está mais aqui.

— Pare com isso…

— É exatamente como você se lembrou, Kaori.

— Pare.

— Ele está… O Nagumo-kun está…

— Pare, eu já disse para parar!

— Kaori! Ele está morto!

— Não! Ele não está morto! Eu sei! Pare de dizer essas coisas cruéis! Não vou perdoar ninguém por dizer isso, nem mesmo você, Shizuku-chan!

A Kaori continuava balançando a cabeça, se esforçando o tempo todo para se libertar das mãos da Shizuku. Mas a Shizuku se recusou a soltar suas mãos mesmo um pouquinho. Em vez disso, ela abraçou a Kaori, tentando aquecer seu coração gelado.

— Me deixe ir! Me deixe ir agora mesmo! Eu tenho que ir procurar pelo Nagumo-kun! Por favor, estou te implorando… Eu sei que ele ainda está vivo em algum lugar… então, por favor! — Ela gritou para a Shizuku para a deixar ir, mas permaneceu chorando em seu peito enquanto o fazia.


KakaSplatT
Técnico em eletromecânica e tradutor quando possível…
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